sábado, 20 de janeiro de 2018

Falsificação

O amor é um pêndulo de dores e alegrias, que por vezes pára no meio do caminho, deixando uma neutralidade, um gostinho de tanto faz, mas que a seu tempo volta a balançar. Algumas vezes ele para por um segundo e meio nas dores e, como o que é ruim é melhor observado e sentido, parece que o pêndulo parou por horas, ali, mas foram os mesmos segundo e meio que tantas vezes pararam nas alegrias, mal percebidas porque o riso e a aceleração do corpo deram a impressão de terem se passado menos de meio segundo. Uma missão inglória para quem ama incondicionalmente alguém que geralmente não parece compartilhar de tal sentimento.
Me lembrei de quando trabalhei no clube de campo, aqui na zona sul de São Paulo, como apanhador de bolinhas de tênis, o que consistia em que ficasse abaixado ao lado da rede enquanto os tenistas se saracoteavam de um lado para o outro em saques e retomadas com suas raquetes e seus gritos onomatopeicos de "Uh" e "Ãhnnn" repetidas vezes, enquanto eu esperava pelos seus erros para sair correndo e apanhar a bolinha na rede ou nos arredores da lateral da quadra.
Meu pai me havia conseguido o emprego com um amigo seu. Finais de semana e feriados, lá estava eu, com sol, frio ou garoa (em dias de chuva eu efetuava outros serviços de auxiliar geral para não perder o dia de trabalho), e me lembro que uma das coisas que mais gostava era da comida do clube... Céus que alimento infernal de vicioso e delicioso! Descobri, posteriormente, que aquele clube só aceitava famílias de, ou com, atletas como sócio e que o título do clube era caríssimo (não sei se ainda é assim nos dias de hoje), o que me fez, automaticamente, entender que eu provavelmente nunca seria um sócio dali. Mas isso não me impedia de sonhar, claro, com o melhor atendimento, com a pompa no tratamento pessoal que eles recebiam, com as gentilezas e com os tratamentos educados de "sim senhor, claro senhor, imediatamente senhor, disponha senhor, etc senhor...", e me via ali, no lugar do "senhor" servido naquele instante. Bem, amargando e amadurecendo estes tipos de pensamentos, chegou aquele dia. Um dia frio, nada de livro, só a expectativa de algumas partidas de tênis, visto que eu ganhava por partida. A quadra de saibro estava molhada pela chuva do dia anterior, mas a de terra absorverá bem a água e eu perceberá isso antes dos meus outros colegas, então me posicionei próximo á quadra mais procurada e esperei minhas "vítimas pagadoras", como gostávamos de chamá-los, não tardou surgiu dois "senhores", um de uns 50 anos e o outro de uns trinta. Eu já trabalhara com eles n'outras oportunidades, então quando me viram ali foi como ver uma prostituta, acenaram e eu fui. Jogaram três partidas e me deram o recibo onde tinha seus nomes, números de sócios e número de partidas efetuadas. Eu, tinha de entregar aquela notinha para o gerente e este pontuava no meu formulário para cobrar dos sócios e me pagar no final do mês. Porém antes de entregar a supracitada nota, vi uma oportunidade e tentei: transformei aquele número três em oito e, para minha surpresa, fui pago naquela semana (fim do mês), por todas as 32 partidas (inclusas as oito falsas). Aquilo me abriu um leque de ideias e comecei a alterar partidas sim e partidas não. Três e quatro viravam oito, um virava sete, constantemente, e continuei aquele mês todo com uma planilha maior que todos os meus colega, ganharia uma fortuna no final daquele mês, mas não ganhei...
No dia do pagamento, no fim do mês seguinte, algo aconteceu, havia um recibo de oito partidas escrito "averiguar autenticidade" (era aquele primeiro recibo, o inicializador da minha futura fortuna), e o gerente me chamou á sua sala. Questionou, eu neguei, afirmou, eu neguei, então me perguntou se eu sabia porque o máximo dos recibos chegava a quatro e como não respondi ele me contou que era porque cada partida chegava a um máximo de vinte minutos. Eu não entendi. Ele disse que quatro partidas equivaliam a uma hora e vinte e comecei a suar, percebendo meu erro. Ele então me perguntou, sempre muito amável, se eu achava que homens daquela idade conseguiriam correr jogando por duas horas e quarenta minutos ininterruptamente. Baixei a cabeça, pego em minha mentira, mas não confessei. Ele se levantou, abriu a porta e acenou para que alguém entrasse. Quando vi aquela figura ali, parado me olhando, a vergonha era insuportável, não sabia o que fazer, queria um buraco do mesmo tamanho que tinha, naquele momento, meu coração, para me enfiar dentro e ser coberto... Meu pai me encarava triste, mas não com raiva, nem desprezo, mas tristeza e vergonha! Ele não falou nada, só ouvia e balançava a cabeça positivamente com ar de pesar para o que o amável gerente dizia sem grosserias, uma passividade irritante. Meu pai devolveria o dinheiro espúrio que eu ganhara e, se ele quisesse, poderia me levar de volta a trabalhar ali após um ano (o que, é claro, nunca aconteceria). Saímos e no caminho de volta, aqueles 20 minutos que separavam nossa casa do clube, foi como andar dentro de um cemitério, ninguém falava, ele olhando á frente, nitidamente triste e eu sem coragem para falar nada. Daí, finalmente uma frase, quase que suspirada, é solta:
- Seu erro é achar que as pessoas são idiotas, mesmo as que te amam!
Bem, sabem aquele pêndulo, até hoje está parado no canto da tristeza por nunca ter confessado ao meu pai e àquele gentil gerente, o grande idiota que eu fora, algo que não demoraria nem mesmo um segundo e meio!
Bruce Will Pereria‎
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