sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Só o amor

E o amor sempre nessa toada! 
briga perdoa perdoa briga. 
Não se deve xingar a vida, 
a gente vive, depois esquece. 
Só o amor volta para brigar, para 
perdoar, amor cachorro bandido trem. 
Mas, se não fosse ele, também 
que graça que a vida tinha? 
Carlos Drummond de Andrade

O privilégio do amor

Amor é privilégio de maduros 
estendidos na mais estreita cama, 
que se torna a mais larga e mais relvosa, 
roçando, em cada poro, o céu do corpo. 
É isto, amor: o ganho não previsto, 
o prêmio subterrâneo e coruscante, 
leitura de relâmpago cifrado, que, 
decifrado, nada mais existe valendo 
a pena e o preço do terrestre, 
salvo o minuto de ouro no relógio 
minúsculo, vibrando no crepúsculo. 
Amor é o que se aprende no limite, 
depois de se arquivar toda a ciência herdada, 
ouvida. Amor começa tarde.
Carlos Drummond de Andrade

Eu queria dar e receber

Eu quis tanto ser a tua paz, 
quis tanto que você fosse o meu encontro. 
Quis tanto dar, tanto receber. 
Quis precisar, sem exigências. 
E sem solicitações, aceitar o que me era dado. 
Sem ir além, compreende? 
Não queria pedir mais do que você tinha, 
assim como eu não daria mais do que dispunha, 
por limitação humana. 
Mas o que tinha, era seu.
Caio Fernando Abreu

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

O quanto te amo

Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.
Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.
Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.
Meu amor tem duas vidas para amar-te. 
Por isso te amo quando não te amo 
e por isso te amo quando te amo.
Pablo Neruda

Amor infinito

Quando o corpo estiver cansado,
e as pernas já não 
puderem te levar.
Vem, eu ainda te espero.
Quando o amor
for mais forte e mais
importante que o desejo fútil.
Vem, eu ainda te quero.
E quando o espetáculo acabar
e já não tiver mais aplausos.
Vem, e eu serei 
tua plateia.
Ana Fahd